O ENEM e algumas conclusões sobre a avaliação
Como falamos dias atrás, o MEC liberou os relatórios de avaliação do ensino básico e médio. Após análise do balanço o SAEB, agora analisaremos os resultados do ENEM - Exame Nacional do Ensino Médio. Sei o quanto as estatísticas são desgastantes na leitura, mas creio que a análise de algumas informações pode enriquecer nossos debates.
ENEM?
O ENEM nasceu em 1998, e em sua última edição (2006) teve 2,8 milhões de participantes. Para melhor compreendermos a iniciativa, precisamos conhecer o objetivo do exame. Ele foi elaborado com o intuito de avaliar o desempenho dos alunos quando concluem o ensino médio. Além disso, o MEC destaca como objetivos prover, à qualquer pessoa, uma auto-avaliação consistente para tomada de decisões de continuação dos estudos ou trabalho; possibilitar uma opção alternativa ou complementar aos processos de seleção do mercado de trabalho e de acesso a cursos pós-médios profissionalizantes e ao ensino superior, e criar condições para participação em programas governamentais da área de educação.
Avaliação
Na edição deste ano, a avaliação geral dos alunos foi muito fraca. Para nossa comparação, utilizaremos as notas alcançadas nas questões objetivas da prova. Na média nacional, o índice de acerto das questões foi de apenas 36%. O resultado, ainda pior que o do ano anterior, ainda destaca uma disparidade grande entre o resultado das escolas particulares (50% da prova objetiva na média nacional) e públicas (34%). Os melhores resultados, nas escolas públicas e particulares, se deu nos estados das regiões sul e sudeste, além do Distrito Federal. O ensino público pior avaliado é o de Tocantins (29% das questões objetivas), assim como o Maranhão é o pior resultado entre as particulares (37%).
Outro dado interessante: São Paulo é o Estado onde a diferença entre os resultados das escolas públicas e privadas é maior (quase 18%), enquanto o Rio Grande do Sul é o segundo Estado que possui menor disparidade (6,5%, e conservando uma avaliação alta em relação às demais unidades federativas), perdendo apenas para Roraima. Além disso, a média de notas é praticamente mantida ao redor do país: a mais baixa é da região norte (32%) e a mais alta da sudeste (38%).
Comparação com outros anos
Se compararmos os resultados alcançados neste ano com o ano anterior, o desempenho piorou (nas provas objetivas, 3%) – e isso foi noticiado pela mídia – ligando o resultado a uma piora no ensino médio. Porém, temos que tomar cuidado em relação a esse tipo de conclusão. O ENEM não é uma prova que mantém o nível durante os anos, segundo o MEC. Diferente do SAEB, o exame permite, no máximo, uma análise entre os resultados do próprio ano - como as comparações acima. Como exemplo, uma experiência pessoal: no ano em que fiz o exame, meus professores pregavam que o exame era muito fácil e sem “pegadinhas” – e que eu não precisava me preocupar com elas. Porém, a prova estava, de fato, muito diferente dos anos anteriores, e repleta das tais “pegadinhas”.
Não estou querendo, com isso, discordar que a qualidade do ensino médio esteja piorando. Mas não concordo com os que acreditam que os dados do ENEM possam ser utilizados com tanto critério para tal conclusão.
A proposta do exame não inclui a necessidade de manter o mesmo nível durante todos os anos. Com base nisso, levanto ainda outra questão: se o próprio MEC diz que o nível do exame não se mantém, seria justo as universidades aceitarem resultados de mais de um ano de exame em seus processos seletivos?
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É, bem colocada a questão de comparação. Comparar o Enem de um ano com os anos anteriores não parece ser um caminho viável, mesmo. Quando penso nisso vem-me à mente a Fuvest: há anos em que a Fuvest tem nota de corte alta, há anos em que acontece o contrário, e isso não é gradativo, linear, mas diferente para cada prova, já que cada ano tem sua singularidade. O mesmo pode estar acontecendo com o ENEM. A nota de corte baixar não quer dizer que os alunos estão menos instruídos, menos estudados.
E parece não ser justo as universidades aceitarem resultados de mais de um ano, mas pensando num aluno que fez dois, três anos, não é ruim, embora os mais novatos sejam prejudicados por isso, tendo apenas um ano para a conta. De fato, para estes últimos é injusto.