Breve diálogo entre uma professora e uma prostituta
*Baseado em um diálogo real (os nomes são fictícios):

Mariana é professora recém-formada de Geografia, leciona em escolas particulares e está ingressando no mestrado em uma universidade pública. Estudou, há tempos, com Silvana, que é prostituta e deixou os estudos durante o ensino médio. Encontram-se na rua, no centro da cidade. A prostituta voltava das compras; a professora caminhava do ponto de ônibus até a escola onde trabalha.
“Por onde andou?”, pergunta Mariana. Segue-se um relato de viagens à Inglaterra, Estados Unidos, Japão. Muitos clientes, muito trabalho, muito dinheiro. Férias ótimas. Silvana indaga Mariana sobre o que ela estava fazendo, estava trabalhando? Ela conta: é professora. “Que legal”, afirma Silvana, pouco convincente. “Mas é difícil, né? Ganha tão pouco, fora a violência, tenho visto na TV…”
Silvana conta que está morando em um duplex emum bairro tradicional da elite da cidade, e convida a professora a fazer uma visita. Mariana está atrasada, conta que mora com o pai em um lugar bastante afastado (“é, não conheço”, diz Silvana), mas que pensa em mudar porque está pagando todas as contas, está pesado, e as escolas onde trabalha são muito distantes, no centro. “Cê tá construindo?”, indaga Silvana, pergunta que mal é entendida por Mariana – cujos planos não incluem, nos próximos anos, a compra de um imóvel ou qualquer coisa que precise de bastante dinheiro.
Mariana olha ao relógio. “Preciso ir. Nos vemos qualquer dia, me ligue”. Despedem-se. Enquanto Silvana se dirige ao estacionamento aonde pegaria seu carro (a propaganda dizia: “o carro de quem fez por merecer”), a professora segue seu caminho, lembrando de como eram nos velhos tempos e percebe, abrindo um leve sorriso pela ironia, que estivera constrangida de dizer a uma prostituta que era professora.




Triste diagnóstico: uma sociedade que valoriza prostitutas e não professores.