Hoje o Futuro Professor vem se pronunciar sobre a greve na USP e o confronto de alunos, professores e funcionários com a Força Tática da PM no Campus Butantã da USP em São Paulo, na última terça-feira, dia 09.
Os funcionários da USP, representados pelo Sintusp, estão em greve desde o dia 5 de maio, reivindicando, entre outras coisas, reajuste salarial e outros direitos dos funcionários públicos. Contudo, o sindicato dos professores (Adusp) e alunos da Universidade aderiram à greve apenas nas últimas semanas, tendo como principais reivindicações a extinção da Univesp (Universidade Virtual do Governo do Estado – mais!) e a retirada da PM de dentro da Cidade Universitária. Recentemente, a ADUnicamp também aderiu à greve e se juntou ao STU, a fim de repudiar a ação da PM no dito confronto e ainda lutar pelas causas que lhe dizem respeito.
O artigo de hoje, porém, não vem falar especificamente das reivindicações dos grevistas, mas vale lembrar que as principais delas são: melhores salários; promover debates sobre a real função da Univesp; negar o novo sistema de plano de carreira docente proposto pela reitoria; e a mais recente – retirada da PM de dentro do Campus.
Veja aqui as pautas da Adusp (e aqui) e do Sintusp.
Acho que o mais importante a ser debatido aqui e esclarecido é a pauta que trata da presença da PM no campus, por ser um assunto que tomou proporções desastrosas e, infelizmente, a mídia parece não estar preparada para divulgar com imparcialidade tais informações. É por isso que deixo claro que os alunos da USP não são contra a presença da polícia no campus para fins de segurança! Porém, poucos sabem que a Reitora da USP não convocou a PM para fazer a segurança dos alunos da USP, mas sim para intervir e evitar que os sindicatos de professores e funcionários negociem abertamente com a Reitoria.
O Futuro Professor lamenta a infeliz atuação da Força Tática da PM de São Paulo sob o comando da reitora da USP Profa. Dra. Suely Vilela. Assim como lamenta ver um protesto chegar a tal situação dentro de uma Instituição de Ensino.

A polícia foi convocada pela reitora da USP para ocupar a Cidade Universitária no dia 1º de junho com a intenção de desfazer uma manifestação de piquete e ocupação que não trazia prejuízos ao patrimônio público, nem tampouco usava de violência. A Reitoria da USP vem evitando negociações desde o início da greve e, no início do mês, tomou a infeliz decisão de convocar a Polícia Militar para sitiar o espaço da Reitoria no campus, tornando impossível o acesso à Reitora pelos representantes dos sindicatos.
Até agora, os depoimentos sobre como o ato se deu são muito dispersos. Contudo, acreditamos que, seja qual tenha sido o motivo para o início do confronto, os depoimentos que correm em listas de e-mails são gravíssimos. Abaixo, reproduzo a conclusão de um desses depoimentos sobre a atuação da Reitoria, o do Prof. Dr. Pablo Ortellado (EACH-USP):
Estou cercado de colegas que estão chocados com a omissão da reitora. Na minha opinião, se a comunidade acadêmica não se mobilizar diante desses fatos gravíssimos, que atentam contra o diálogo, o bom senso e a liberdade de pensamento e ação, não sei mais.
A Diretora da FFLCH-USP, Profa. Dra. Sandra Nitrini, por sua vez, declara em nota oficial do dia 10 que:
Por volta das 17hs, mesmo com a tentativa de mediação da direção da FFLCH junto ao comandante do efetivo da PM, bombas de efeito moral foram atiradas sobre o estacionamento do prédio de Geografia e História, tendo seus gases invadido o edifício, onde se encontravam muitos professores, alunos e funcionários de nossa unidade.
Segurança
O Futuro Professor concorda que há falta segurança dentro dos campi das universidades estaduais. Porém, é bom deixar claro que a PM estava dentro do campus nesses dias apenas para “proteger” a reitora de uma manifestação sindical aberta à negociação. Esse tipo de informação curiosamente não é divulgado pela mídia.
Repito: a polícia não está dentro do campus para combater os crescentes roubos de automóveis, estupros ou o tráfico de drogas existentes na Cidade Universitária. Ela está presente apenas para impedir que alunos, funcionários e professores se aproximem da reitora para negociar. E é contra essa atuação da PM (por ordem da Reitoria e Governo do Estado) que parte da comunidade USP se põe contra. Acreditamos que o espaço universitário deve ser um templo de reflexão, debate e lutas por melhorias sociais e a favor da educação pública de qualidade, e não uma praça de guerra com reitores fechados ao diálogo.
A atual reitora – considerada inábil por boa parte dos integrantes da comunidade USP – parece não saber negociar ou mesmo marcar reuniões. Qualidade que seria imprescindível a uma presidente do Cruesp.
Não vamos aqui discutir qual o papel da polícia. Mas, de fato, não é o de defender uma reitoria de protestos de funcionários e estudantes que buscam apenas melhorias de um patrimônio público e, infelizmente, mal administrado: a educação pública. E também não é papel da Reitoria evitar diálogos com os manifestantes e tratar alunos universitários como se fossem marginais.
A reitora é uma professora como outra qualquer e que foi escolhida por uma minoria de representatividade muito pequena dos integrantes da comunidade USP. Porém, como professora, parece não compartilhar valores que separam educação de violência.
Armas, cadernos e flores
O Futuro Professor não pretende distorcer fatos ou exagerar os acontecimentos. Apresentamos aqui apenas nossa opinião sobre o fato. Entendemos que a PM estava fazendo seu trabalho e pode ter tomado as decisões que tomariam normalmente. O que está sendo questionado aqui é a má atuação da Reitoria da USP em colocar a PM no Campus para intervir (de forma desigual, vide foto) uma negociação que deveria ser mantida no nível das autoridades e representantes dos alunos, funcionários e professores.
O Futuro Professor acredita que o diálogo, em suas diversas formas, é a melhor opção para se discutir e debater os problemas da Educação e para buscar boas soluções para as reivindicações.
É importante também lembrar que manifestações como essas não ficam restritas à Universidade, já que elas referem-se à qualidade da educação pública em todos os níveis, por buscarem melhorias na formação de professores, na distribuição do dinheiro público para fins acadêmicos e exigirem que a democratização do ensino seja feita com qualidade e atenda verdadeiramente as necessidades de toda a população.

Fica aqui, novamente, nosso desaponto com o ocorrido no dia 9: um acontecimento lamentável e pouco racional para a Educação já debilitada do Brasil, que – infelizmente – faz-nos lembrar dos tristes depoimentos da repressão intelectual de algumas décadas atrás.
Como sempre, o Futuro Professor deixa aberto o espaço para os comentários a favor ou contra a greve. Temos ciência de que muitos alunos USP não aderiram à greve e não compartilham dos mesmos interesses que os manifestantes, ou nem mesmo sabem dos problemas que a Universidade vem enfrentando e a importância de se debater assuntos visando a melhoria da educação pública e melhores condições trabalho para os funcionários da USP e terceirizados.
Nosso site também está aberto a qualquer aluno, professor, funcionário das Universidades ou representante da PM para expor seu depoimento ou fazer um pronunciamento. E é em respeito aos quase 20 mil visitantes mensais deste site que decidimos colocar nossa opinião sobre o lamentável confronto da última terça-feira, que só mostra o quanto ainda temos que lutar pelos nossos direitos e por uma verdadeira democratização da Educação.
Rafael Rocha e André Pasti – alunos de Universidades Estaduais de São Paulo.
:: fotos retiradas das galerias da adusp e do limão ::