Política Educacional

Petróleo, pré-sal e educação

Posted in Política Educacional, Todos os artigos, Valorização do Professor on março 27th, 2010 by André Pasti – 2 Comments

O que petróleo tem a ver com educação? Fácil: possibilidade de mudar o rumo do país.

Os recursos do petróleo e o pré-sal

Não sei se todos viram, mas as últimas semanas foram agitadas: Sérgio Cabral chorando de um lado, Xuxa reclamando de outro, o Rio clamando o petróleo pra si, o COB ameaçando cortar a olimpíada do Rio. Por quê? Resumindo, com os novos recursos do petróleo vindo da camada pré-sal, começou-se a discutir uma redistribuição do dinheiro dos royalties (compensação em recursos públicos pela exploração do petróleo) na qual o Estado do Rio de Janeiro sairia perdendo.

Essa discussão recente no Brasil sobre os royalties do petróleo trata basicamente de quem deve ficar com os recursos, ou melhor – visto que é uma questão geográfica -, de onde esses recursos devem ficar. Mas estão deturpando a principal discussão: o que fazer com esse dinheiro?

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A importância do Fundo Social

Pela proposta do governo Lula, parte desse dinheiro irá para um Fundo Social para se desenvolver educação, cultura, ciência e tecnologia, e para acabar com a pobreza. É importante que isso seja de fato realizado. Ainda não sabemos bem o que o congresso vai fazer com esse dinheiro, ou seja, qual destino será dado. Mas é óbvio que o caminho, olhando para o futuro, é usar essa oportunidade para combater os problemas sociais brasileiros. No longo prazo, o caminho para isso passa, sem dúvida, por reverter a situação da educação no país. Para isso, precisamos de recursos.

O petróleo é das crianças

Nessa linha, propomos a leitura desse artigo muito interessante do Senador Cristóvam Buarque, defendendo que o petróleo é das crianças, ou seja, esses recursos – finitos – do petróleo, descobertos na camada do pré-sal, devem ser usados com foco nas gerações futuras; devem ser usados na melhoria da educação brasileira.

Veja mais:

http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/folha_artigo_haddad.pdf

Entrevista com APEOESP sobre a greve dos professores em São Paulo

Posted in Entrevistas, Formação de Professores, Política Educacional, Todos os artigos on março 18th, 2010 by André Pasti – 22 Comments

Como muitos sabem, os professores do Estado de São Paulo estão em greve. Veja suas principais reivindicações.

Conversamos com a APEOESP, o sindicato da categoria (fomos atendidos pelo sr. Luis Brandino) via internet sobre a greve. Veja a entrevista abaixo:

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Futuro Professor: Como está sendo a mobilização e a participação dos professores? A nova política de punição das faltas está dificultando que a greve se consolide?

APEOESP: A greve atingiu 63% de adesão na quarta-feira, 17, em todo o Estado. Historicamente a greve se constrói durante algumas semanas até se consolidar. Sempre houve desconto dos dias parados, que são negociados depois de a greve ser encerrada. Há outros motivos que levam o professor a temer represálias, como a instabilidade no emprego – por parte dos temporários – e o período de estágio probatório para os efetivos recém-ingressos na rede.

A greve no serviço público é um direito garantido pelo Supremo Tribunal Federal, e deve ser exercida nos temos da Lei 7783/89. O artigo 6º da referida lei reza que “são assegurados aos grevistas, dentro outros direitos: I – o emprego de meios pacíficos tendentes a persuadir ou aliciar os trabalhadores a aderirem à greve (…) § 2º – É vedado às empresas adotar meios de constranger o empregado ao comparecimento ao trabalho, bem como capazes de frustrar a divulgação do movimento”.

Sobre a contratação de professores substitutos, o artigo 9º da Lei de Greve diz que isto só é possível se houver um acordo numa negociação para se garantir um número mínimo de trabalhadores “com propósito de assegurar a regular continuidade da prestação do serviço público” e o sindicato não cumprir o negociado. Até agora não houve qualquer negociação.

FP: As reações do governo já começaram?

APEOESP: O governo insiste em dizer que a greve atinge 1% das escolas. Contudo, vem ameaçando os professores com o desconto dos dias parados, o não-pagamento aos grevistas do bônus mérito, instaurar processo administrativo e a constratação de professores substitutos. Sobre a contratação de professores substitutos, o artigo 9º da Lei de Greve diz que isto só é possível se houver um acordo numa negociação para se garantir um número mínimo de trabalhadores “com propósito de assegurar a regular continuidade da prestação do serviço público” e o sindicato não cumprir o negociado. Até agora não houve qualquer negociação.

FP: Muitas pessoas argumentam que as greves na educação são muito prejudiciais aos estudantes, e que outros caminhos de mobilização deveriam ser utilizados. O que vocês têm a dizer a esse respeito?

APEOESP: É claro que os professores não gostam de fazer greve. Nossas reivindicações não são só salariais, mas também educacionais. Entendemos que os alunos têm maiores prejuízos com a educação pública que lhes é oferecida. As escolas não têm infra-estrutura, as salas são superlotadas, com baixos salários, os professores são obrigados a lecionar em mais de uma rede, e é claro que isto provoca prejuízos pedagógicos. Dados do Censo do MEC (2006) apontam que somente 15% das escolas públicas de São Paulo possuem bibliotecas e 23% laboratórios de ciências. Este é o prejuízo maior.

FP: Como fazer para minimizar o impacto da greve no calendário de aulas dos estudantes? Já há planos quanto a isso?

APEOESP: Assim que a greve for encerrada se discute com a Secretaria da Educação um calendário de reposição de aulas.

FP: Quais são as perspectivas para o professor que está ingressando agora ou vai ingressar em breve no mercado de trabalho em São Paulo?

APEOESP: O governo não faz concursos periódicos. A consequência é que 48% dos professores do Estado são admitidos em caráter temporário. A Lei Complementar 1093, aprovada no ano passado pela Assembleia Legislativa, precariza ainda mais a situação do professor ingressante na rede sem concurso. Ele terá de prestar uma prova e terá contrato de até 12 meses; passado este período, terá de cumprir uma “quarentena” de 200 dias; só depois poderá voltar a lecionar no Estado, claro que prestando outra prova.

FP: O governo de São Paulo insiste em chamar toda greve de “greve política”, na tentativa de “desmoralizá-la”. Toda greve é política, bem sabemos, e ele também sabe. Vocês conseguem imaginar como seria a “greve técnica” do Serra?

APEOESP: O governo volta a insistir que nossa greve é “política” tentando envolver o sindicato na disputa político-partidária nas eleições à Presidência da República. É uma forma de desviar a atenção da população para os verdadeiros motivos da greve. Senão, vejamos: o valor da hora-aula pago pelo Estado de São Paulo, o mais rico da Federação, é um dos menores do País: Professores do Ensino Básico II, que lecionam da 5ª a 8ª séries e Ensino Médio, recebem R$ 7,58 a hora-aula, valor menor do que o pago no Acre (R$ 11,17), Roraima (R$ 10,32), Alagoas (R$ 10,15), Tocantins (R$ 10,10) e Espírito Santo (R$ 9,60). Professores do Ensino Básico I recebem ainda menos, R$ 6,55. O piso salarial de um Professor do Ensino Básico II é R$ 909,32 por 24 horas semanais. Nem conseguimos imaginar como seria uma “greve técnica”. Talvez o Serra tenha a fórmula.

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Tirinha extraída de jornal univesitário de 1982

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Você é professor? Aderiu ou não aderiu à greve? Por quê? Conte aqui!
Você, cidadão, estudante, aproveite para dar sua opinião sobre a greve aqui no Futuro Professor.

A vantagem acadêmica de Cuba [Resenhas #3]

Posted in Política Educacional, Resenhas, Todos os artigos on fevereiro 24th, 2010 by Rafael Rocha – Be the first to comment

Capa do livroTivemos a oportunidade de ler um livro lançado ainda em 2009 pelo pesquisador americano Martin Carnoy com o apoio da Fundação Lemann. Carnoy estuda diversos aspectos da educação em seus mais de 40 anos de carreira em investigações científicas em educação e economia e possui diversos outros títulos publicados, é autor também de Estado e Teoria Política (2003).

A vantagem acadêmica de Cuba: por que seus alunos vão melhor na escola propõe esmiuçar os motivos pelos quais os alunos cubanos vêm obtendo melhores desempenhos em diversas provas internacionais e despontam como referência em qualidade de educação na América Latina. Para isso, o autor e os pesquisadores Amber Gove e Jeffery Marshall se apoiam principalmente em resultados das disciplinas de matemática de três países: Brasil, Chile e Cuba. Além dos índices internacionais, eles também se utilizam de provas de nível nacional e registro de aulas de matemática que acompanharam nos três países.

O livro é muito bem detalhado e preocupado (até o ponto a que se propõe) em explicar aos leitores quais são os órgãos e instituições responsáveis por diversos índices ou decisões político-educacionais nos diferentes países. A atenção aos índices e aos dados técnicos pode cansar alguns leitores que buscam no livro uma fórmula para aplicar em sala de aula no Brasil. Por outro lado, os índices ajudam a manter o texto com um pé na realidade, diferente de muitos trabalhos em pedagogia e educação que se perdem sob uma aura extremamente utópica (sem rigor científico algum) e mostram um desconhecimento profundo da realidade educacional brasileira por parte de certos autores.

Essa visão exageradamente romântica da educação não se expressa na análise de Carnoy. Apesar da amplitude perigosa de seu objeto de estudo, a comparação dos dados parece bem feita, com uma apresentação didática da situação educacional de cada país e de sua história recente, no que diz respeito à área.

Por outro lado, o leitor pode achar muito perigoso comparar a situação educacional de países com perfis tão diferentes. Ainda mais, entendendo como os governos desses três países se diferem na atualidade, pode parecer que a comparação entre os resultados não seja suficiente. O autor argumenta que a comparação é feita entre países latino-americanos, sob um contexto histórico-político recente similar, já que todos possuem experiência com regimes autoritários.

Para ele, a educação em Cuba tem um caráter mais eficaz do que a praticada nos outros países da América Latina (Brasil e Chile no caso desse estudo). Os motivos para o sucesso cubano, segundo o autor, seriam um controle mais rígido do estado na educação dos alunos e um capital social compartilhado entre os indivíduos dessa educação.

O controle cubano a qual o autor se refere tem origem na história conturbada que conhecemos de Cuba. Diferente do que ocorre no Brasil e no Chile, o governo cubano assume toda a responsabilidade pela educação das crianças, tirando dos pais praticamente qualquer poder de decisão. No Chile, o autor diz que a responsabilidade do governo pela educação é muito menor. Lá, os pais tem autonomia total sobre o futuro acadêmico dos filhos. No Brasil, essa responsabilidade ainda é mais rateada entre o governo e os pais, ambos têm sua parcela de responsabilidade e ambos possuem autonomia em boa parte das decisões acadêmicas das crianças.

Em cuba, os alunos mais jovens passam o dia todo com o mesmo professor, em regime de educação integral. Além disso, as intervenções em sala por parte dos diretores é rotineira. No Brasil e no Chile, o professor tem mais autonomia em sala de aula, e uma mesma turma possui vários professores, muitas vezes, mesmo quando jovens. Para Carnoy, o modelo cubano contribui para que o aluno veja no professor mais que um exemplo, mas que tenha com ele uma relação próxima de confiança e cumplicidade.

Outra razão pela qual o autor acredita conferir ao modelo cubando o que ele considera vantagem é a escolha pela profissão de docente. Em cuba, os professores são valorizados e ocupam um cargo respeitado socialmente. Desse modo, entre aqueles que escolhem a profissão docente estão os melhores alunos da escolas, que são também incentivados com bons salários (relativamente) e boa posição social.

Combinando todas essas razões, o autor chega à conclusão de que Cuba possui sim uma grande vantagem acadêmica pela maior intervenção estatal em todos os níveis de educação, e em todos os espaços; pela valorização do professor; pelo regime integral de educação (com o mesmo professor) durante a formação dos alunos mais jovens; e pelo modelo rígido do material didático.

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